quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A vida é feita de títulos

A vida é feita de momentos. É uma coisa até que óbvia, o tempo é a somatória de momentos. Mas não fale isso prum físico, porque essa frase perde totalmente sentido no ambiente científico. A vida é feita de fórmulas. É provavelmente o que esse mesmo ambiente pensa, e faz perfeita direção, visto que todo o mundo é regido por componentes químicos e leis matemáticas descritas por fórmulas. Para alguns, capazes de encontrar padrões em tudo, isso é óbvio. A vida é feita de certezas. Mas essa percepção não é onipresente. Outros, talvez menos objetivos e mais desiludidos, pensem de forma oposta. A vida é feita de acasos. Uma série incalculável de acasos em sequência leva a um encontro. Certo, certo? Afinal, a vida é feita de encontros. Uma grande figura da cultura disse isso. E esse é apenas mais um entre tantos dizeres famosos na história. A vida é feita de frases. Ou a vida é feita de histórias? Difícil afirmar, certamente pode-se dizer que ocorre o inverso, o que realmente importa é o que está por vir. A vida é feita de expectativas. Mas esperar demais pode impedir que se aproveite o presente, algo que ninguém deseja. A vida é feita de desejos. Sendo assim, qual o objetivo desse autor, passar a mensagem que a vida é feita de desejos? Ou ainda, mostrar que a vida é feita de mensagens? Pior, mostrar que a vida é feita de perguntas? A vida é feita de exclamações! A vida é feita de textos semi-pretensiosos mal escritos. A vida é feita de autocrítica. A vida é feita de insegurança intelectual... A vida é feita de momentos repentinos de autoconfiança! A vida é feita de revelações! Que a vida é sua e que você tem o poder de fazer com ela o que quiser. A vida é feita de possibilidades. Infinitas possibilidades. A vida é feita de infinitas possibilidades difertentes? Afinal, a vida é feita do quê exatamente?



A vida é feita de qualquer coisa que você colocar aqui. "A vida é feita de" é só uma frase genérica que você aplicar para tudo e ainda assim vai parecer que você emitiu uma máxima incontestável.






























Obs: A vida é feita de obervações.


domingo, 21 de setembro de 2014

O Vendedor de Pentes

A maneira como um indivíduo arranja as palavras ganhar e vida na frase revela muito de como eles enxergam a existência, o que cada um deseja; pessimistas querem ganhar da vida, ambiciosos ganhar na vida, esforçados ganhar a vida e miseráveis ganhar vida. Nosso vendedor é um homem que ganha a vida vendendo pentes.  Todo dia ele levanta da cama às quatro e trinta e dois da manhã (o despertador está ajustado para tocar as quatro e meia, mas ele passa alguns minutos se espreguiçando). Toma um banho, toma um café, prepara seu lanche e prepara sua cesta de pentes. Calça seus chinelos azuis da sorte (ele só tem esse par de chinelos) e segue seu caminho em direção ao trabalho.

São cinco e quinze da manhã. Na praia, há apenas areia, o mar, ele, conchas, sujeira e algumas pessoas. Ele sorri, é um grande dia. Se aproxima de uma mulher. Uma potencial cliente, a primeira do dia talvez. Afinal, todo mundo precisa de um pente. Ela usa um casaco rosa, um boné branco, tênis de corrida e um aparelho do qual sai música conectado aos ouvidos. Ele corre ao seu lado. Bom dia atleta! O que você acha de comprar um pente? Tenho diversas cores, inclusive rosa. Ela fez um gesto negativo com a mão aberta. Provavelmente nem ouviu o que ele disse. Outros clientes virão.

Aos poucos, a praia vai se enchendo de pessoas. Ele se aproxima de um jovem garoto de boné. O garoto fazia um castelo de areia a beira do mar, naquela região onde a maré chega apenas as vezes. Ei menino! O que acha de comprar um pente? O garoto respondeu que não tinha dinheiro, pois tinha apenas seis anos de idade. Tentou mudar seu público alvo e foi em direção ao pai, que olhava desconfiado de uma cadeira a alguns metros. Usava óculos escuros, trajava bermuda florida e vestia um imponente bigode. Belo dia senhor! Um dia melhor ainda para se comprar esse belíssimo pente de cabelo! O homem de bigode ficou furioso e pediu-se para ele se retirar, por meio de palavrões. Não era a primeira vez que um cliente careca reagia desse jeito.

Aproximou-se de uma senhora de alguma idade que estava tomando sol de bruços. Colocou os pentes de cores mais claras e com detalhes floridos na parte de frente da cesta, como foi instruído a fazer no curso de vendas. Agachou-se ao lado da espreguiçadeira. A senhora tem um cabelo radiante, mas acredito que ficaria ainda melhor se penteado com alguns desses pentes. A senhora abriu os olhos, encarou o sorriso do vendedor, olhou para a cesta de pentes, voltou para o vendedor e virou o pescoço para o outro lado, tentando pegar no sono novamente.

Deu uma olhada na cesta de pentes. Estava idêntica a cesta de manhã, um pouco mais suja talvez. Olhou seu reflexo no vidro de uma perua. Seu sorriso permanecia o mesmo. O Sol se punha atrás do Mar, fazendo um pôr-de-sol bastante bonito. Um bom escritor ou poeta certamente saberia descrever esse cenário de uma maneira bastante agrádavel e lúdica ao seu leitor. Ele não lia muitos livros (nem poucos, nem nenhum) mas achou a cena bastante bonita também. Ficou um bom tempo parado admirando a praia.


Ele não era muito bom vendedor.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Garçom

-Boa noite senhor, seja bem-vindo à casa. Meu nome é garçom e eu serei seu garçom esta noite. Em que posso servi-lo?
-Boa noite, eu gostaria de dar uma olhada no cardápio.
-Um momento, por favor.

.

-Aqui está, senhor.
-Obrigado.

..

-Eu gostaria de pedir o filé mignon ao molho madeira com risotto parma.
-Verei o que pode ser feito, senhor.

...

-Aqui está. Um belíssimo salmão à provençal acompanhado de cuscuz marroquino.
-Garçom, receio que tenha havido um engano, esse não foi meu pedido.
-O senhor está correto. No entanto, não há nada que eu possa fazer.
-Como assim?
-Aqui no restaurante nós temos a filosofia de sempre fazer o melhor para o cliente. Estamos certos de que o salmão despertará mais seu paladar que o filé. Por isso, não podemos deixar que o senhor escolha seu prato. Além do mais, carne vermelha não é muito saudável nessa idade e o risotto tem bastante colesterol. Só estamos fazendo o melhor para o senhor, senhor.
-Mas isso não foi o que pedi. Eu gostaria do filé com risotto.
-Eu compreendo senhor e insisto: coma o salmão, ele irá agradá-lo.

..

-Hum.

.

-E então, senhor?
-Realmente, estou surpreso. O prato está bastante apetitoso. O salmão está perfeitamente temperado, em uma mescla de acidez e frescor. O molho por sua vez possui uma pitada de prepotência presumida, mas não deixa de lado uma certa nostalgia frutada. O cuscuz, por outro lado, parte tanto do surrealismo azeitado quanto da lucidez agridoce para convergir em um único sabor adocicado de orvalho.
-Foi o que imaginamos. Agora o senhor aprova nossa filosofia?
-Não.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Canhoto

Nasceu como todo mundo. Só que com uma diferença, era canhoto. A diferença é que, enquanto o resto escrevia com uma mão, ele escrevia com a outra. No fundo não mudava muita coisa. Ou mudava?

Quando pequeno, a mãe sorria ruborizada ao notar que ele costumava segurar seus brinquedos com a mão esquerda. Tentava apaziguar a situação. Deve ser coisa da idade, logo passa. O pai parecia mais desconfiado. Preocupava-se com o futuro. O que esse menino vai ser da vida se continuar assim?

Nos primeiros anos de escola, era possível observar algumas tendências. Ele apresentava um maior interesse pelas matérias que envolviam algum tipo de representação artística. Atividades relacionadas à lógica e a memória não lhe estimulavam muito. Aspectos que convergiam com uma recente linha de estudos que sua professora lia na época.

Quando aprendeu a escrever, as dificuldades ficaram ainda mais visíveis. Seus colegas de sala, ao perceberam a diferença, logo lhe deram o apelido de "tortinho". A professora se esforçava para coagir esse tipo de atitude, mas seus esforços eram quase sempre inúteis.

No futebol as coisas eram melhores. Por ser ligeiramente mais alto que a idade, tinha uma certa vantagem no jogo. A partir do esporte, adquiriu o respeito de seus colegas e criou uma amizade com alguns. No entanto, assim que cometia um único erro, era obrigado a ouvir do técnico: "eu falo que canhoto não pode ser zagueiro".

Foi uma grande alegria quando entrou na universidade. Seus pais pareciam aliviados e ele, de certo modo, também. Antigas incertezas do passado deixaram de sobrevoar o futuro.

Na faculdade, deu-se conta do contexto ao qual estava inserido. Ele, que sempre foi mais reservado, acabava frequentemente citado no meio de discussões sobre preconceito e exclusão social. Havia os que defendessem cotas e havia os que olhavam torto. Tentava manter-se alheio. Fez alguns amigos e estudava com afinco.

Já rapaz, conheceu uma moça. Risadas eram frequentes, interesses compartilhados, amor intenso.  Decidiram dar o próximo passo. Sua namorada marcou um jantar para apresentar-lhe aos pais.

No dia do encontro, tudo transcorria bastante bem. E era difícil pensar porque seria diferente. Ele era ligeiramente bonito, suficientemente educado e competentemente trabalhador. Os pais dela trocavam olhares de mútua satisfação. Eles dois trocavam olhares de mútua felicidade.

No entanto, a situação pareceu mudar completamente assim que ele sentou-se a mesa e inverte os talheres de posição. O tom da conversa tornou-se sensivelmente mais grave. As perguntas, mais invasivas. Os sorrisos, escassos.

Em poucas semanas o namoro desandou. O que era uma ensolarada certeza passou a uma tempestade de dúvidas. Terminaram.

Foi uma das poucas vezes que começou a duvidar da realidade. Memórias voltaram com uma sombra diferente. Por muitos anos conviveu sem questionar muito, atribuindo certos acontecimentos a meras coincidências ou fixações ideológicas. Teria sido negligente por muito tempo?

A vida seguiu medianamente por algum tempo.

Um dia, pegou o jornal. Bateu de olho com uma notícia: "Descoberto gene que define destros e canhotos".



A única diferença entre ele e o resto era que, dentre vinte mil partes minúsculas presentes em cada célula do corpo, uma era um pouco diferente.

sábado, 6 de setembro de 2014

Toda argumentação é uma definição de conceitos

Quando duas pessoas discutem se A é ou não é B, elas estão na verdade tentando definir B e, posteriormente, se A se enquadra nessa definição. A maior parte das discussões é inconclusiva justamente porque as pessoas tem definições de B diferentes.